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Até quando deves amamentar?  A ciência responde  e contradiz o que andou a circular

Até quando deves amamentar? A ciência responde e contradiz o que andou a circular

Até quando deves amamentar?

A ciência responde e contradiz o que andou a circular

No verão de 2025, uma declaração da assessora da ministra do Trabalho portuguesa deixou muitas mães em estado de choque. A sugestão de que algumas mulheres amamentavam os filhos apenas para beneficiar de um horário reduzido no trabalho, mesmo com crianças já em idade escolar, gerou uma onda de críticas de pediatras, enfermeiros especialistas e associações de defesa dos direitos das famílias.

"Nenhuma mulher normal amamenta um filho depois dos 2 anos, quem diz o contrário não pode ser boa mãe! Deve exigir intervenção da CPCJ… As fraudes devem ser combatidas sem qualquer receio."

Elsa Gomes · ex-assessora da ministra do Trabalho

Rapidamente, petições com dezenas de milhares de assinaturas foram lançadas. O debate instalou-se.

Se ficaste confusa, com raiva ou simplesmente sem saber o que pensar, este artigo é para ti. Sem política. Sem julgamentos. Só o que a ciência diz sobre amamentar.

Mas por baixo da polémica política existe uma pergunta muito mais importante: o que diz a ciência sobre amamentar para além do primeiro ano?

Quais são os benefícios reais?

É sobre isso que vamos falar aqui. Sem julgamentos, sem pressão. Só informação.

A polémica surgiu no contexto de um pacote de reformas laborais proposto pelo Governo (o chamado "Trabalho XXI") que incluía alterações à dispensa para amamentação e que foi chumbado na assembleia.

Até agora, a lei portuguesa é clara: uma mãe que amamenta tem direito a uma dispensa de trabalho enquanto durar a amamentação, sem prazo definido, com apresentação de atestado médico apenas a partir do primeiro ano.

O que o Governo propôs foi fixar um limite de dois anos, com atestado médico obrigatório de seis em seis meses a partir do primeiro aniversário do bebé.

Para muitas famílias, a medida em si não seria problemática na prática já que a maioria das crianças desmama antes dos dois anos.

O que gerou mais reação foi o tom do debate público: a sugestão de que a amamentação prolongada seria, em alguns casos, uma fraude ao sistema.

Os especialistas discordaram. E a ciência também.

O que a OMS recomenda… e porquê

A Organização Mundial de Saúde é inequívoca: recomenda amamentação exclusiva nos primeiros seis meses de vida e, após a introdução de alimentos sólidos, a continuação da amamentação até aos dois anos ou mais, enquanto a mãe e a criança assim o desejarem.

Esta recomendação não é arbitrária. Baseia-se em décadas de investigação científica sobre os benefícios do leite materno para o desenvolvimento infantil e também para a saúde materna.

A Sociedade Portuguesa de Medicina Interna é direta sobre isto. Defende que duração ótima da amamentação é desconhecida, e os benefícios são reconhecidos enquanto a mãe e a criança queiram manter a prática.

O que a ciência diz sobre amamentar para além do primeiro ano

Para o bebé

O leite materno não perde valor nutritivo com o tempo, antes pelo contrário, ele adapta-se. No segundo ano de vida, 500 ml de leite materno continuam a suprir uma parte significativa das necessidades diárias de vitamina C, vitamina A, proteínas de alto valor biológico e energia total da criança.

Mas os benefícios vão muito além da nutrição:

Sistema imunológico. A amamentação continuada fortalece a imunidade do bebé e reduz o risco de infeções respiratórias, diarreia e doenças crónicas como obesidade e diabetes. Segundo dados compilados pela OMS, a prática reduz em 13% a mortalidade em crianças com menos de cinco anos.

Desenvolvimento cognitivo. Estudos da Fiocruz e de outras instituições mostram que bebés amamentados apresentam, em média, melhores resultados cognitivos, incluindo QI mais elevado e melhor desempenho escolar. Um estudo de longo prazo sugere que esses efeitos persistem até à idade adulta, com associação a maior escolaridade e rendimentos mais altos.

Saúde oral e orofacial. A sucção do peito tem um papel no desenvolvimento correto da musculatura facial e da arcada dentária, diferente do que acontece com tetinas artificiais.

Vínculo e segurança. Este é talvez o ponto menos falado no debate público, e talvez seja um dos mais importantes e que referimos sempre na Pulguinhas. A amamentação não é apenas alimentação. É também conforto, regulação emocional e segurança. Como sublinhou uma das enfermeiras especialistas que responderam à polémica, defendendo que amamentar é o instinto de sobrevivência de uma criança a encontrar a sua base segura.

A teoria do apego, desenvolvida por John Bowlby e amplamente confirmada por investigação posterior, explica que o bebé humano tem uma necessidade inata de proximidade física com a figura de cuidado, normalmente a mãe, e que essa proximidade é tão primária quanto a necessidade de alimento. Amamentar é frequentemente as duas coisas ao mesmo tempo.

Para a mãe

Os benefícios da amamentação prolongada para a saúde materna são consistentes na literatura científica. Entre eles: redução do risco de cancro da mama (estimado entre 4,3% e 6% por cada ano de amamentação), menor incidência de hipertensão e doenças cardiovasculares, e melhoria da saúde mental.

Além disso, mães que amamentam tendem a faltar menos ao trabalho, porque os seus bebés adoecem menos.

Então por que é que amamentar além dos dois anos é tão raro?

Em Portugal, a maioria das crianças desmama muito antes dos dois anos. Os dados disponíveis mostram que as taxas de aleitamento materno caem drasticamente a partir dos seis meses, e a razão principal não é a falta de vontade das mães.

São os obstáculos estruturais: o regresso ao trabalho, a falta de apoio nos locais de trabalho, a pressão social, e uma cultura do desmame precoce que persiste mesmo entre alguns profissionais de saúde.

Ironicamente, são precisamente essas barreiras que a lei laboral existente procurava mitigar ao garantir às mães que amamentam o direito a condições que tornem possível continuar.

Um estudo que acompanhou 423 bebés na Área Metropolitana de Lisboa, nascidos em 2019, mostra bem esta queda. À saída da maternidade, 94,3% das mães amamentavam. Aos 6 meses, 64,4% continuavam a amamentar, mas só 25,6% o faziam em exclusivo, quando a recomendação da OMS é amamentação exclusiva até essa idade (Branco et al., 2023, Acta Médica Portuguesa).

A ACT garantiu não ter registos de queixas de trabalhadoras que terão usufruído do horário reduzido de forma abusiva. Por outro lado, registou 23 casos de abuso por parte das entidades empregadoras, tendo autuado 10 empresas por não cumprirem o direito ao horário reduzido.

Quais são os teus direitos em Portugal hoje

Se as propostas de alterações legislativas não foram aprovadas em definitivo, mantém-se o quadro legal atual:

  • ❤Enquanto o teu bebé for amamentado, tens direito a 2 dispensas diárias (de até 1 hora cada uma) para amamentar.
  • ❤Até ao primeiro aniversário do bebé, não é necessário apresentar qualquer atestado médico.
  • ❤A partir do primeiro ano, é necessário atestado médico para continuar a beneficiar da dispensa. A periodicidade de renovação pode variar.
  • ❤A mãe que amamenta está dispensada de trabalho noturno e de regimes de trabalho que possam prejudicar a amamentação, mediante certificado médico.

Se tens dúvidas sobre a tua situação específica, fala com o teu médico de família ou com uma consultora de lactação (IBCLC).

Até quando faz sentido amamentar?

A resposta honesta é: enquanto funcionar para ti e para o teu bebé.

A OMS diz dois anos ou mais. A ciência confirma os benefícios enquanto a amamentação durar. E os especialistas são consensuais: o desmame deve ser gradual e nunca forçado ou abrupto.

O debate público sobre amamentação em Portugal revelou algo que muitas mães já sabiam: a falta de informação científica rigorosa no espaço público custa-lhes caro, seja em culpa, em pressão ou em decisões mal informadas.

A ciência não tem dúvidas: amamentar é um dos atos mais poderosos que uma mãe pode fazer pela saúde do seu filho. E merece ser apoiado, não dificultado.

Se tens questões sobre amamentação, introdução alimentar ou os teus direitos como mãe, partilha nos comentários. Estamos aqui. ?

FAQ

A amamentação depois dos 12 meses ainda tem valor nutritivo?

Sim. O leite materno continua a adaptar-se às necessidades da criança ao longo do tempo, fornecendo nutrientes, anticorpos e fatores de crescimento que não existem noutros alimentos.

Posso amamentar e introduzir alimentos sólidos ao mesmo tempo?

Não só podes como é o que a OMS recomenda. A partir dos seis meses, a alimentação complementar começa, mas o leite materno mantém-se um alimento importante em simultâneo.

O que é o desmame guiado pela criança?

É uma abordagem em que o desmame acontece de forma gradual e natural, ao ritmo da criança, sem cortes abruptos. A Associação Espanhola de Pediatria recomenda que, quando chegar a altura de desmamar, se opte pelo desmame progressivo, negociando com a criança os momentos de amamentar, em vez de uma paragem repentina.

E se não consigo amamentar ou não quero?

A decisão de amamentar é de cada família. O que importa é que seja uma decisão informada e livre de pressão, seja em que sentido for. Se precisares de apoio para amamentar ou para tomar uma decisão, fala com uma IBCLC. Podes encontrar mais informação no nosso artigo sobre amamentação com apoio de consultora.

O Sling pode ajudar na amamentação?

Sim. Carregar o bebé próximo do corpo no Sling facilita a leitura dos sinais de fome, promove a produção de leite por estimulação hormonal e torna mais fácil amamentar em movimento, especialmente nos primeiros meses.

O que posso fazer se o meu empregador não respeitar o meu direito à dispensa para amamentação?

Deves contactar a Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) ou procurar apoio jurídico especializado. O direito à dispensa para amamentação está protegido por lei.

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