Sling e Displasia da Anca: o que a Investigação Ortopédica Diz Sobre a Posição M
Sling e Displasia da Anca: o que a Investigação Ortopédica Diz Sobre a Posição M
Recebo esta pergunta todas as semanas nas sessões de Sling Support: é seguro usar sling se o meu bebé tem, ou pode vir a ter, displasia da anca? É uma pergunta séria, que merece uma resposta com base científica, não opiniões soltas. Como psicóloga e consultora certificada de babywearing, fui à literatura ortopédica confirmar o que a investigação diz sobre a posição da perna do bebé no sling, a chamada posição M, e sobre a relação entre o babywearing e a displasia do desenvolvimento da anca. Este artigo reúne essa investigação, com fontes verificadas, para responder à pergunta com precisão.
A posição saudável para a anca do bebé: 90º a 110º de flexão e 40º a 55º de abdução, com uma margem de variação à volta destes valores de cerca de 30º para cada lado (o "cone de estabilidade").
O que é a displasia do desenvolvimento da anca
A anca do recém-nascido ainda está a formar-se. A cabeça do fémur devia encaixar bem no centro do acetábulo, o encaixe da bacia. Quando a perna do bebé fica esticada e junta durante muito tempo, esse encaixe fica mais raso e instável. A este problema chama-se displasia do desenvolvimento da anca (DDA), e é mais comum do que muitas famílias pensam. Vaidya, Aroojis e Mehta (2022), numa revisão publicada no Indian Journal of Orthopaedics, analisaram exactamente esta relação entre o posicionamento pós-natal, incluindo práticas como o enfaixamento tradicional e o babywearing, e o risco de displasia.
A posição M: a posição que protege a anca
O International Hip Dysplasia Institute (IHDI), uma referência internacional em displasia da anca, define com precisão a posição saudável para a anca do bebé: fletida entre 90º e 110º, e afastada (abduzida) entre 40º e 55º. Nesta posição, a cabeça do fémur é pressionada uniformemente no centro do encaixe da bacia.
Na prática, é a posição que o bebé escolhe sozinho ao colo. Rabinho para baixo, joelhos acima da anca, coxa apoiada até ao joelho, formando um M quando visto de frente.
O IHDI descreve ainda uma margem de variação à volta desta posição central, a que chama o cone de estabilidade: quanto mais fletida a anca, menos abertura é precisa, e o contrário também é verdade. Essa margem ronda os 30º para cada lado. Por isso a posição M varia ligeiramente de bebé para bebé e de fase para fase, sem deixar de proteger a anca. O que nunca muda é o princípio: joelhos acima da anca, coxa apoiada.
O risco da perna esticada e do sling mal ajustado
A investigação é consistente há décadas: manter a perna do bebé esticada e junta, seja por enfaixamento tradicional ou por um sling mal ajustado, empurra a cabeça do fémur para fora do centro do encaixe. É esta a relação que Vaidya, Aroojis e Mehta (2022) reviram na sua análise sobre posicionamento pós-natal e risco de displasia.
O que o estudo com ultrassom mostrou
Um estudo do International Hip Dysplasia Institute comparou, com recurso a ultrassom, bebés em porta-bebés de base larga, que apoiam a coxa até ao joelho, e em porta-bebés de base estreita, que apoiam apenas a virilha. A anca ficou mais centrada e mais estável no encaixe nos bebés que usavam o modelo de base larga, uma diferença ainda mais marcada nos bebés que já apresentavam sinais de displasia.
O sling durante o tratamento com arnês de Pavlik
Uma das perguntas mais frequentes que recebo é sobre bebés já em tratamento, com um diagnóstico confirmado. Uma revisão publicada no Journal of the Pediatric Orthopaedic Society of North America (JPOSNA), escrita especificamente para cirurgiões ortopédicos, ajuda a responder (Sidharthan, Kehoe & Dodwell, 2020).
Os autores descrevem um modelo computacional que mostrou que a posição M no sling produz forças na articulação da anca muito próximas das consideradas benéficas para o desenvolvimento saudável da anca. Mais relevante ainda: não encontraram diferença na flexão, na abertura nem na rotação da anca entre o arnês de Pavlik e o porta-bebé, quando ambos são bem ajustados.
A revisão aponta ainda vários benefícios práticos do sling durante o período de tratamento:
- Mantém a anca na mesma posição terapêutica do arnês de Pavlik.
- Mantém o vínculo e o contacto físico entre mãe e bebé, sem pausar por causa do tratamento.
- Facilita a amamentação em resposta, sem forçar posições.
- Liberta as mãos da mãe para o resto do dia, sem que seja preciso pousar o bebé.
Como em qualquer utilização do sling, a posição e o ajuste correctos continuam a ser essenciais, com ou sem tratamento em curso.
E se o dispositivo ortopédico estiver no pé, não na anca?
Nem todos os bebés que vejo nas sessões de Sling Support têm displasia da anca. Alguns usam botas de Ponseti, o dispositivo usado no tratamento do pé boto (talipes equinovaro), uma condição diferente, com outro tratamento. A pergunta que me fazem é sempre a mesma: dá para usar sling?
A resposta é sim. A solução são os modelos que não obrigam a passar as pernas por aberturas pré-formadas, como o sling argolas ou o wrap com a amarração cruz envolvente, porque se adaptam à posição que o dispositivo permite, em vez de a forçar.
Conclusão
A pergunta que ouço todas as semanas tem, afinal, uma resposta clara na literatura ortopédica: sim, é possível, e muitas vezes vantajoso, usar sling com displasia da anca, ou com outros dispositivos ortopédicos nas pernas ou nos pés, desde que o modelo e o ajuste sejam os correctos para a fase e para o tratamento do bebé. É exactamente isso que confirmo, sem custo, em cada sessão de Sling Support incluída na compra de qualquer sling Pulguinhas: se a anca do teu bebé está na posição M, e se o modelo que escolheste se adapta ao que o tratamento dele exige. ?
Perguntas frequentes
É seguro usar sling se o bebé tem displasia da anca?
Sim. A investigação mostra que a posição M no sling, quando bem ajustada, produz uma posição da anca equivalente à do arnês de Pavlik, o tratamento mais comum para esta condição.
O que é a posição M?
É a posição saudável para a anca do bebé: fletida entre 90º e 110º e afastada entre 40º e 55º, com os joelhos acima da anca e a coxa apoiada até ao joelho.
Todos os slings dão a posição M?
Não. É preciso que o tecido apoie a coxa até ao joelho e que a largura seja adequada à fase do bebé. Um sling estreito de mais, ou mal ajustado, pode deixar a perna a cair, o que não protege a anca.
Posso usar sling se o bebé estiver com o arnês de Pavlik vestido?
Sim, desde que o modelo escolhido se adapte à posição que o arnês permite, sem forçar a perna contra o dispositivo.
E se o bebé usar botas de Ponseti para o pé boto?
Também é possível. Modelos como o sling argolas ou o wrap em cruz envolvente não obrigam a passar as pernas por aberturas fixas, o que os torna compatíveis com o dispositivo.
Referências
Vaidya, S., Aroojis, A., & Mehta, R. (2022). Developmental Dysplasia of Hip and Post-natal Positioning: Role of Swaddling and Baby-Wearing. Indian Journal of Orthopaedics. PMID: 35003533.
International Hip Dysplasia Institute. (s.d.). Baby Wearing. hipdysplasia.org.
International Hip Dysplasia Institute. (s.d.). Babywearing Research Confirms Hip-Healthy Position in Wide-Base Carriers. hipdysplasia.org.
Sidharthan, S., Kehoe, C., & Dodwell, E. (2020). Post-Natal Positioning through Babywearing: What the Orthopaedic Surgeon Needs to Know. JPOSNA, 2(3).

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