Como correu a escola?

Como correu a escola?

Saber como correu o dia das nossas Pulguinhas enquanto estiveram longe de nós pode não ser tarefa fácil. Na maioria das vezes, quase independentemente da sua idade, a resposta vai ser generalista e pouco informativa. A um ‘como correu a escola?’ a resposta provável será um simples ‘correu bem.’ Para evitar ficar às escuras e conseguir construir um diálogo informativo com a Pulguinha falámos com a Dr.ª Leonor Ribeiro, técnica superior de Educação Especial e Reabilitação.

 

 

 

1.‘Como correu a escola?’ é uma curiosidade dos pais que às vezes não fica esclarecida com as respostas da Pulguinha. Que truques podemos utilizar?

 

 

A maioria dos pais sente-se frustrada com as respostas em monossílabos a esta pergunta. Estas respostas breves e vazias podem dar-se porque a pergunta é muito abrangente e pode tornar-se extremamente complexo para a criança contar o quê, o como, o onde e o quando… outras vezes a criança pode querer ter o seu espaço e não querer partilhar naquele momento essa informação. No entanto, é importante que não desista.

 

Deve continuar a mostrar interesse pelo que aconteceu na escola, para que o seu filho saiba que está interessado e envolvido, que valoriza as atividades escolares, as suas amizades e brincadeiras. Manter o diálogo aberto vai ajudar-lhe a compreender como o seu filho está a lidar com a aprendizagem, com as rotinas escolares, as interações e frustrações, se está motivado e feliz na escola, desta forma consegue prevenir que eventuais dificuldades se acentuem. Nestas conversas criam-se também oportunidades de partilhar os seus pontos de vista e os valores da família em relação a situações do dia-a-dia.

 

Para além disto, existem benefícios para as crianças ao conversarem com adultos. Ao conversar com o seu filho está a promover o desenvolvimento do seu vocabulário, o que vai ter impacto na sua aprendizagem, mas também ao conversar com ele, demonstrando interesse e empatia, está a promover o desenvolvimento de competências sociais e emocionais.

 

 

 

2. Há formas diferentes de abordar Pulguinhas de idades diferentes?

 

 

Para Pulguinhas mais pequenas:

 

Pode ser necessário conduzir mais a conversa, dando pistas para organizar o discurso, repetindo o que a criança disse (corrigindo no caso de a frase estar mal construída ou as palavras mal pronunciadas), ajudando a alargar as suas ideias, pode dar algumas pistas para as palavras que não consegue nomear e substituir os gestos que ela faz por palavras. Faça comentários e perguntas para continuar a conversa (“e a seguir?”, “isso deve ter sido divertido”, “que assustador!”, “conta-me mais”).

 

Quando as dificuldades em recontar são marcadas, pode ser importante os pais estarem de antemão a par de algumas atividades que se desenrolaram na escola, “sei que hoje comeste ao almoço as fantásticas almôndegas da Dª Fernanda!”, “hoje estiveram com a professora de música, qual foi a canção de que mais gostaste?”, “hoje vamos comprar frutas, como aquelas da história que leram na escola, consegues ajudar-me a encontra-las todas? E de qual gostas mais?”. Ao lerem histórias antes de adormecer, podem também relacionar ações, sentimentos e lugares ao que aconteceu na escola, de forma espontânea e natural o seu filho pode ir fazendo associações “eu hoje também me senti zangado no recreio, como a serpente desta história, não gosto nada que façam batota!”, aproveite e dê-lhe espaço e conforto para falar.

 

 

Com as Pulguinhas mais velhas:

 

Neste caso não é necessário tanto apoio para organizar o discurso e para conseguir nomear as palavras. Deve aguardar o momento certo e ir fazendo perguntas abertas, para promover o diálogo e não apenas perguntas fechadas como: “gostaste do almoço?”, “brincaste com a Maria?”. Dê algum tempo para a criança responder, não se sobreponha de imediato, aguarde cerca de 3 segundos… oiça-a e promova a continuação do diálogo.

 

 

3. Ter tempo para falar com a Pulguinha é sempre importante. Que estratégias podemos utilizar?

 

 

O ideal é o primeiro contacto quando vai buscar o seu filho, ser de pleno afeto, demonstrando a alegria de o rever, reserve as perguntas sobre a escola para mais tarde, conversem primeiro sobre outros assuntos (como foi o seu dia, notícias, eventos, o jantar, …).

 

Por exemplo, ao conversar sobre o seu dia no trabalho, está a servir de modelo, conte algo simples e que possa despertar a sua atenção, fale dos seus sentimentos e reações “Lembras-te da minha colega Susana? Ela hoje levou umas uvas fabulosas para o trabalho, daquelas que nós gostamos, souberam-me tão bem! E sabes quem as apanhou? Foi ela, o fim de semana passado foi às vindimas! Eu adorava um dia ir às vindimas…”.

 

 

Quando sentir que é o momento certo, e nem todos os dias vão ter desses momentos, faça perguntas simples, positivas e diretas.

 

 

Exemplos:

- O que foi mais divertido hoje?

- O que gostaste mais hoje?

- Como está a sala de aula, tem algum cartaz novo? Como são os cabides este ano?

- Com quem brincaste no intervalo? E a seguir, como foi? Como te sentiste?

- Que disciplinas tiveste hoje?

- Qual foi o almoço?

- Que história ouviram hoje? O que pesquisaram?

 

Não force um momento para conversar com a criança, para não ter a sensação de interrogatório, ninguém gosta de ser alvo de um interrogatório… mas aproveite momentos descontraídos em que estão juntos, no caminho para casa, enquanto põem a mesa ou tomam uma refeição. Neste momento dê atenção ao seu filho, mostre o seu interesse, evitando estar ligado a dispositivos electrónicos, mostre respeito e interesse pelo que ele diz, não o interrompa, utilize a linguagem não verbal e pequenos comentários para mostrar que está a acompanhar a conversa.

 

 

 

4. Todas as perguntas são válidas? Há coisas que devemos procurar saber e outras que podem ficar apenas no mundo delas?

 

 

Não é necessário que os pais saibam todos os detalhes da vida do filho, todas as brincadeiras, pequenos segredos, esconderijos para tesouros, … permita ao seu filho contar as novidades do dia de escola, até onde ele desejar, não é necessário insistir. Existindo uma comunicação aberta vai saber o que for realmente importante e deve obviamente também ir mantendo o diálogo com a educadora ou professora e pais de colegas dos seus filhos, para existir uma rede de comunicação fluida.

 

Algumas perguntas que se devem evitar fazer logo no momento imediato de ir buscar ou de receber os filhos da escola são sobre os TPC e testes, pode criar a sensação de não haver uma quebra entre o longo dia de escola e o momento de família, bem como pode ser causador de alguma ansiedade. Primeiro desfrutem sempre da melhor forma a companhia um do outro, descontraiam e de seguida, se necessário, verifiquem os afazeres da escola.

 

 

Entrevista a Leonor Ribeiro:

 

Técnica superior de educação especial e reabilitação no CADIn, Neurodesenvolvimento e InclusãoMestre e doutoranda em educação especial, especialização em dificuldades de aprendizagem

Sócia honorária da APPDAE (Associação Portuguesa de Pessoas com Dificuldades de Aprendizagem Específicas)

Leonor.ribeiro@cadin.net

https://www.linkedin.com/in/leonor-ribeiro-45a332a/

 

 

2Comentários

  • Avatar
    Anabela Madeira
    Set 19, 2017

    Oi, prima.! Li a tua entrevista e adorei.....Palavras sábias! Parabéns!

  • Avatar
    Pulguinhas
    Set 21, 2017

    Olá Anabela. Ainda bem que gostou da entrevista. É sempre bom acompanhar os especialistas... e quando são família ainda melhor.

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