Luto Materno – Coração de Leão – como viver para lá da perda de um filho?

Luto Materno – Coração de Leão – como viver para lá da perda de um filho?

 

 

 

Pais órfãos de filhos. Só esta expressão é o suficiente para tirar o ar a qualquer um. Mas mostrar que pode haver uma vida com significado, mesmo após a perda de um filho, é hoje a missão de Aracelli Moreira, mãe, exemplo de força e de superação e autora do livro Coração de Leão. Esta é a sua história.

 

 

 

Ser órfão de filhos é um dos maiores terrores, tanto que muitos pais não conseguem sequer imaginar. Até que a realidade bate à porta. Seja por doença ou acidente, podemos falar de um impacto que é comum a todas as histórias ou é sempre diferente?

 

 

Eu nunca, em nenhum momento, imaginei ficar sem o meu filho. Mesmo com os diagnósticos na gravidez de Cardiopatias e da Síndrome de Down, das cirurgias que estavam previstas, ou inclusive no momento em que fui avisada da sua parada cardiorrespiratória, eu pensei que ele não conseguiria sobreviver. Apenas no instante em que recebi a notícia: “Ele não resistiu”, é que pude realmente entender o que é essa separação. A gente nunca imagina como é até viver esse momento. O vazio. O buraco que se forma diante de nós.

 

Por dias, fiquei à cama, sem entender o motivo de levantar, tomar banho, alimentar-me, viver! Eu me lembro que dizia: “Não consigo ser a Aracelli de antes.” E é assim mesmo. Porque é impossível sermos os mesmos. Desconheço um processo de transformação mais radical que esse, pois tudo isso nos faz ser uma outra pessoa.

 

 

 

 

Como foi que nasceu a sua preocupação em chegar a outros pais órfãos de filhos?

 

 

Dois dias após a partida do Miguel, sentindo a necessidade de falar dele, no entanto vendo a tristeza naqueles que estavam ao meu redor, decidi começar escrever. Escrevi por 3 meses, para mim, para ele. Registei tudo o que eu precisava de entender, ressignificar a nossa história. Foi algo terapêutico, mesmo que inconsciente. Foi a minha forma de sobrevivência. A minha terapeuta disse que eu criei os meus próprios métodos para passar pela dor.

 

Nesse meio tempo, enviei um poema que fiz para as “Mães UTI” que conheci na maternidade. A psicóloga, que viveu tudo connosco, disse-me o quanto foi importante para elas lerem aquele texto e pediu-me para que escrevesse para o seu blog, dizendo que eu poderia escrever qualquer coisa sobre Maternidade. A única coisa que eu tinha vivenciado como mãe foi o curto tempo em que vivi com meu filho, decidi então escrever sobre “Quando me tornei mãe de UTI”.

 

Foram quase 30 mil visitas em poucas horas e centenas de mensagens, de histórias vividas dentro de uma UTI. Ali eu tive a certeza de que o arquivo que guardara em meu computador poderia ir além da minha forma de viver o luto. Percebi que tudo o que meu filho e eu passamos nada mais era do que Uma Linda História de Amor, que precisava ser de mais gente também.

 

Resolvi publicar Coração de Leão no dia em que o meu Leãozinho completaria 1 ano de existência. E tive o presente de estar com centenas de pessoas de olhos emocionados, abraços apertados, com corações abertos para receberem esse Amor. Foi a manifestação de amor mais linda que nós poderíamos ter. 

 

Desde então, pude conhecer inúmeras histórias, famílias, sonhos e formas de viver esse momento. Sempre digo que meu filho deixou para mim muita coisa, dentre elas, me faz estar com pessoas muito especiais. E estar próxima a elas, ou até mesmo ajudar alguém a passar pelo processo do luto é, de certa maneira, estar mais perto dele.

 

 

 

O que define o luto materno? Como se atravessa? Como se vive?

 

 

Não posso dizer pelas outras pessoas da família, mas uma mãe nunca esquecerá o filho que partiu. Quando isso acontece ainda na gestação, ou pouco tempo depois do parto (como no meu caso), o nosso corpo ainda acentua esse luto. É a barriga que não voltou ao lugar, ou uma cicatriz de cesariana, ou os seios que ainda produzem leite. E todos esses “sintomas”, depois de um filho que não está mais ali, tornam-se cicatrizes. Dói ver o seu corpo produzir leite e não ter um bebé para alimentar. Foi uma das maiores violências que pude sentir na vida.

 

Uma coisa que aprendi com o luto foi “permitir-me”. No meu tempo (e com terapia) , eu entendi que só EU sentia aquela dor, que por isso não deveria fazer nada do que não fosse o melhor para mim. Por isso sempre digo às Mães de Anjos (como nos chamamos), precisamos respeitar tudo o que sentimos e fazer apenas aquilo que temos vontade. Se doar o enxoval vai fazer bem, doem. Mas se é por pressão dos outros, então é melhor esperar, porque só vai trazer mais sofrimento. Se falar é preciso, então não se calem, nem deixem que tentem isso. 

Cada uma vive o seu luto. O meu modo foi um dos muitos outros que existem. Todos são legítimos. O mais importante dele é vivê-lo! Fingir que não está acontecendo, ou que nada aconteceu, negar a existência daquele filho é enfiar-se num abismo. 

 

E é o Amor que temos por eles que nos move, que nos faz seguir, por eles e para eles.

 

 

 

 

 

Há um dia se supera o luto e se transforma em luta?

 

 

Ouço as pessoas dizerem “Ela superou a morte do filho”. Nenhuma mãe supera a morte de um filho. Nenhuma de nós vai dizer um dia: “Perdi meu filho, tudo bem, superei. Seguirei minha vida tranquilamente”. As pessoas superam um trauma, um medo, mas é humanamente impossível “superar” algo tão imenso.

 

Na verdade a gente “supera” a vida. A vontade de viver. Uma das coisas que aprendi na terapia é que o sofrimento passa, a dor não. Arruma-se um lugarzinho para ela, junto da Saudade e, quando essa vem, dói. Sem o sofrimento, a gente volta a sorrir, a viver, a fazer planos, a ter sonhos. Por eles!

 

Tudo no Miguel é vida, é luz, é fé, amor. Ele só me traz felicidade. Tudo no meu filho me faz bem. E eu o escolheria sempre, mesmo que fosse para tê-lo por apenas 40 dias. Não quero outra história senão essa. Não é fácil. Não vou dizer que não sinto doer lá dentro, mas o Amor que sinto é maior do que tudo.

O luto vira luta a partir do momento em que se é vivido, através do amor que sentimos pelos nossos filhos.

 

 

 

 

Nos seus textos fala em “re-significar”. Este processo será sempre diferente para cada mãe/pai? Há pontos em comum? Quando podemos começar a falar nesta etapa?

 

 

Sim, acredito que seja diferente, porque cada um tem um modo diferente de entender a vida. E, diante de uma situação extrema como essa, vai vivê-lo do seu jeito. Acho importante dizer que todas as formas de ressignificação são importantes, válidas, legítimas! Escreve-se um livro, faz-se uma tatuagem, planta-se uma árvore, escolhe-se um lugar em casa para ter algo que simbolize esse filho... O que quer que seja, uma coisa é certa, todo processo de voltar a dar significado é transformador. É a forma mais bonita de dizer aos filhos que partiram: “Estamos aqui por ti!”.

 

Porque cada etapa vivida do luto, cada momento de altos e baixos, é necessário. Não é “virar a página” ou “seguir em frente” (como dizem aqui no Brasil), é reaprender a viver, é se autorreconhecer. É ser um novo alguém, sem deixar nada para trás. É ser composto por cada pedacinho da sua história e continuar a existir para que novos pedacinhos passem a existir. E o (re)conhecimento só é possível depois de ter passado por todo o processo.

 

 

 

 

 

 

O que lhe confidenciam os pais com quem fala?

 

 

Nossa, muita coisa. Acaba sendo uma terapia para ambos os lados. Porque é um espaço para falar o que “ninguém vai entender”. Sim, apenas quem vive sabe como é. Eu não fazia ideia de como era. Lembro-me de quando meu pai faleceu, eu tinha 16 anos e via minha avó cheirando sua camisa todos os dias. Eu não entendia a lógica daquilo. Durante anos! Até que me despedi do meu filho e tive suas poucas roupas usadas em mãos, com seu cheiro. E de repente aquela lembrança me fez sentido: era tudo o que eu tinha dele ali comigo. 


A dor de uma mãe que se despediu do seu filho aos 40 dias, ou de outra que foi aos 40 anos é a mesma. O que nos diferencia é a ausência e a presença de lembranças. Minha avó provavelmente sentia naquele cheiro a época que riam juntos, que se abraçavam, ou que se desentendiam. Eu sentia o cheiro da UTI, dos planos que fazia de estar com ele, sentindo saudade até mesmo das coisas que nunca pudemos fazer.

 

Há muitos relatos de falta de sensibilidade de profissionais da saúde e, principalmente, da necessidade que a família, a sociedade em geral, tem em insistir no esquecimento dessa criança, que às vezes nem chegou a ir à casa dos pais. Por isso a maternidade de um filho morto se torna ainda mais solitária porque ela é velada, infelizmente ainda é um tabu. Meu livro já viajou o mundo, e sempre me deparo com relatos de mães que dizem o mesmo que ouvimos aqui no Brasil: “Ninguém fala do meu filho, é como se ele não existisse”. As pessoas acreditam que nos fazem bem não falar. Pelo contrário, fingir que o bebé não existe só torna o luto ainda mais doloroso.

 

Sempre publico nas minhas redes sociais acerca da importância de promover a empatia. Porque apesar de ninguém, além de nós, mães de anjos, ser capaz de saber o sentimos, é possível ter empatia. Colocar-se no lugar do outro. Ser sensível àquela dor. Por isso se faz necessário que todos entendam a importância de validar esse luto, de dar espaço para que as mães e os pais também possam falar se assim desejarem.

 

 

 

Que apoios devem procurar os pais e mães que estão em luto?

 

 

Claro que cada um segue o que seu coração manda, mas no meu caso, a terapia ajudou-me muito. Entender o que eu sentia (o que não era pouco) foi fundamental para eu atravessar esse caminho. Mas escrever (mesmo que a princípio só para mim) ajudou-me ainda mais. Foi a minha primeira tentativa terapêutica inconsciente. Eu precisava entender. Ressignificar. Eu precisava de deixar o meu filho existir. E foi com o livro, com as novas histórias vividas, que pude espalhar um pouquinho do meu Leãozinho por aí. 

 

Além disso, estar em contato com outras mães pelos grupos nas redes sociais faz-me estar perto de pessoas que, apesar de boa parte nunca ter visto na vida, entendem o que eu sinto, amparam-me quando necessário. Temos a nossa rede de apoio. É um caminho muito difícil para ser passado sozinho.

 

 

 

 

Onde é possível adquirir o seu livro?

 

 

Na 1ª edição, ele ficou à venda em livrarias e no meu blog. Agora na 2ª edição está pelo blog, comprando pelo link da Amazon, para E-book e impresso, ou diretamente comigo, caso desejem com dedicatória.. Depois de ter publicado o livro, em novembro de 2015, já grávida do meu segundo filho, Theo, percebi que precisava continuar a escrever, percebi que a Maternidade me inspira. Foi aí que criei o blog Coração de Leão onde escrevo quando meu coração pede.

 

O meu leãozinho voa mundo à fora. Além de mães, pais, familiares que passam por experiência semelhante à minha, são muitos os profissionais da área da saúde que procuram nossa história. Algumas Universidades do Brasil e de Portugal já têm o livro em suas bibliotecas. Serão futuros médicos, enfermeiros que poderão lidar, de repente, de uma maneira mais humana, mais sensível à dor de uma família.

 

Uma vez, uma psicóloga, que havia lido o livro e indicado a uma paciente, procurou-me dizendo que “eu” havia feito o que ela em meses de terapia não conseguira. A mãe finalmente tomou a coragem de abrir a porta do quarto do filho. Nossa, eu fiquei tão emocionada! Fico até hoje. Sei o quanto significou para essa mãe, mas também foi muito importante para mim. São relatos como esse que fazem me sentir mais perto do meu Miguel.

 

Eu não posso evitar que outras mulheres sintam a dor do luto, da ausência de um filho, mas se de alguma forma eu puder dizer-lhes que não estão sós, que quando um filho morre, a dor é de todas nós, então valeu a pena tornar pública a minha história com meu filho.

 

Ser a mãe dos meus filhos não me tornou melhor do que ninguém, mas fez tornar-me no melhor de mim. E eu escolheria essa história para a minha vida quantas vezes fosse preciso.

 

 

 

 

Dados de contacto:

 

Aracelli Moreira

Blog: www.coracaodeleao.com.br

Facebook: www.facebook.com/aracellimoreira

Instagram: @coracaodeleaolivro_

email: coracaodeleaolivro@gmail.com

 

 

 

 

6Comentários

  • Avatar
    Danielly Pimenta
    Fev 4, 2019

    Essa luta e de todas nós, não e fácil superar, não é fácil seguir em frente...A vida fica sem rumo sem sentido, por isso nos apoiamos umas nas outras, desabafamos, nos emocionamos juntas. Aracelli é uma grande guerreira, sempre tem palavras lindas pra nos confortar.. Tive duas perdas dois sonhos adiados, por duas vezes vi meu coração sangrar e não é facil seguir em frente, não é facil retomar. As nossas vidas sempre irá faltar algo, mais em nossos corações e em nossos pensamentos eles sempre viverão eternamente...

    • Avatar
      Pulguinhas
      Fev 12, 2019

      Muita coragem e todo o carinho. Obrigada por partilhar o seu amor e apoio. Um beijinho, Danielly.

    • Avatar
      Aracelli Moreira
      Fev 12, 2019

      Que lindo, Danielly. É verdade, juntas somos mais fortes! E quanto maior a rede de apoio, mais significativa e legítima fica nossa caminhada. Seus dois anjos são orgulhosos pela mãe que escolheram! Um grande beijo.

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    Lilia Costa Vieira
    Fev 5, 2019

    Quanta sensibilidade dessa mulher! Quanta poesia! Esse texto tocou-me de modo nunca ter sentido. Aracelli, seu leaozinho trouxe muita sabedoria a ti, mas a muitos de nós também! Fiquei intrigada para ler a sua obra, para saber um pouco mais dessa história que é tão encantadora! Parabéns a ti, a sua dedicação, ao seu amor! Parabéns ao Pulguinhas pela entrevista tão importante para tantas mães. Sou psicóloga e sei o quanto essas mães e pais precisam serem ouvidos!

    • Avatar
      Pulguinhas
      Fev 12, 2019

      Obrigada pelo acolhimento e incentivo à discussão deste tema tão difícil, Lilia. E o nosso sincero reconhecimento pelo apoio à coragem incrível da mãe a autora, Aracelli.

    • Avatar
      Aracelli Moreira
      Fev 12, 2019

      Obrigada pelas palavras, Lilia! Que mais profissionais da saúde abracem essa causa e deem acolhimento necessário a mulheres que faltamente passem por isso.

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