Mãe depois dos 40 – tudo o que precisa de saber

Mãe depois dos 40 – tudo o que precisa de saber

É cada vez mais comum que, por vários motivos, as mulheres acabem por protelar a decisão de serem mães.

 

Seja por colocarem em primeiro a carreira profissional, por terem de lidar com desafios e incertezas nos relacionamentos ou por simplesmente por não sentirem que estão reunidas as condições para dar o passo, a decisão de ter um filho fica relegada para segundo plano. E independentemente das causas, acabam por ser cada vez mais as mulheres que são mães depois dos 40.

 

Se houve já um tempo em que esta era considerada uma idade biologicamente demasiado avançada para decidir ter um filho, hoje essa linha dissipou-se. Resultado dos avanços da medicina e do aumento da qualidade de vida, o risco associado foi diminuindo e o preconceito também.  

 

Contudo, apesar de ser cada vez mais simples e haver menor pressão social, decidir ser mãe depois dos 40 continua a implicar algumas atenções especiais. Para perceber o que muda, quais os riscos e o que esperar de uma gravidez mais tardia, falámos com o médico especialista em ginecologia - obstetrícia Dr. Gustavo Mendinhos.

 

Há uma idade ideal para ser mãe?

 

Não podemos dizer que existe uma idade limite para se ser mãe. As alterações fisiológicas e corporais que acompanham o normal envelhecimento não acontecem só a partir de uma idade específica. Ocorrem de forma gradual e não de maneira idêntica em todas as mulheres. A idade limite para se considerar uma idade materna avançada não é consensual. Há quem considere os 35 anos, outros os 40 anos.

A maioria das mulheres acima dos 40 ou mesmo dos 45 anos tem um desfecho favorável da sua gravidez. E isso verifica-se cada vez mais na nossa sociedade em que a idade média para o primeiro filho tem vindo a aumentar. Vários motivos justificam essa tendência, incluindo opções da mulher ou do casal em termos de formação e carreira profissional, um casamento mais tardio, um segundo casamento e mesmo a uma contracepção eficaz mais disponível.

 

O que muda depois dos 40?

 

Por um lado, está claramente demonstrado que a taxa de fertilidade diminui com o avançar da idade, não só devido ao envelhecimento dos oócitos (as células germinativas femininas) bem como às alterações hormonais decorrentes da idade.

Por outro lado, as mulheres mais velhas podem ter complicações associadas à gravidez tal como ocorrem nas mulheres mais novas. No entanto, sabemos que o risco destas surgirem é maior com o avançar da idade. Incluem maior risco de aborto espontâneo, não apenas por maior risco de anomalias cromossómicas, mas também pela menor qualidade dos oócitos. Este risco aumentado de aborto ocorre não apenas nas primeiras semanas, mas mantém-se mesmo após as 10 semanas. Também as gravidezes ectópicas (aquelas que surgem fora do útero) são mais frequentes em mulheres acima dos 35 anos.

Como é de conhecimento comum, as anomalias cromossómicas são mais frequentes à medida que a idade da grávida aumenta, particularmente as trissomias, entre as quais se encontra a trissomia 21 ou Síndroma de Down.

Segundo alguns estudos, parece também que algumas malformações congénitas (por exemplo algumas anomalias cardíacas) aumentam com a idade materna, independentemente de haver ou não alterações cromossómicas.

 

Temos também de ter em conta que a prevalência de doenças crónicas é maior na mulher mais velha, podendo ter efeitos deletérios na própria gravidez. Entre estas contam-se a hipertensão, a diabetes, a obesidade.

A hipertensão, que constitui o problema médico mais frequente na gravidez, é particularmente prevalente nas mulheres mais velhas, podendo associar-se a morbilidade e mortalidade. Estes riscos podem ser minorados com uma monitorização e intervenção precoces, mas com um aumento de partos prematuros, bebés pequenos para a idade gestacional e a necessidade de cesariana. Também a diabetes, quer pré-existente quer aquela que surge apenas na gravidez, aumenta em frequência em mulheres com mais de 40 anos. A diabetes que já está presente antes da gravidez associa-se a um risco aumentado de malformações congénitas, a um aumento da morbilidade e da mortalidade perinatais, enquanto que aquela que surge apenas na gravidez (diabetes gestacional) tem como principal complicação a macrossomia fetal e suas sequelas.

 

A gravidez gemelar também aumenta de prevalência com a idade materna, quer as gestações gemelares espontaneas, quer aquelas decorrentes de técnicas de procriação medicamente assistida cuja utilização em mulheres mais velhas também aumenta.

 

De um modo geral a morbilidade perinatal aumenta com a idade materna, com um risco aumentado de bebés mais pequenos e de partos prematuros. Também a morte fetal aumenta nestas mulheres, muitas vezes por motivos não evidentes, embora nos países desenvolvidos o risco absoluto seja baixo.

Relativamente ao parto, verifica-se alguma diferença nas mulheres mais velhas, com um número aumentado de partos por cesariana, apenas em parte explicado pelo aumento das complicações médicas.

Por fim, o número de mortes maternas também parece estar aumentado com a idade materna embora esse efeito da idade seja apenas discreto já que o número de mortes maternas durante a gravidez e parto continue baixo nos países desenvolvidos. Já nos países menos desenvolvidos a mortalidade materna continua a ser um problema importante, mas aqui devendo-se sobretudo à falta de cuidados adequados.

 

Que atenções/cuidados especiais (médicas e não só) deve ter a mãe depois dos 40?

 

As mulheres que planeiam uma gravidez devem ser aconselhadas a optimizar o seu estado de saúde (por exemplo alcançar um índice de massa corporal normal, abstenção tabágica e de alcool). É importante, sobretudo nas faixas etárias mais avançadas, ter uma avaliação pré-concecpcional, promovendo o diagnóstico atempado de doenças crónicas (e seu controlo/tratamento adequados) e a aquisição de estilos de vida saudáveis

 

É desejável que a mulher após os 40 tenha a noção dos riscos obstétricos decorrentes da idade avançada de modo a poder prevenir e minorar as complicações associadas.

Para o risco aumentado de anomalias cromossómicas existem hoje em dia testes invasivos (amniocentese e biópsia das vilosidades coriónicas) bem como testes não invasivos que incluem o estudo do DNA fetal no sangue materno com elevada sensibilidade e uma baixa taxa de falsos positivos. Já para o despiste de anomalias congénitas, uma ecografia morfológica correctamente efectuada no segundo trimestre parece ser adequada.

 

Relativamente ao risco de morte fetal no final da gravidez, é importante uma vigilância adequada no último trimestre, particularmente nas últimas semanas, e pensar em induzir o trabalho de parto um pouco mais cedo, entre as 39 e as 40 semanas.

 

Apesar de todas estas situações de maior risco, a grande maioria das gravidezes em mulheres com mais de 40 anos decorrem sem complicações, com um bom desfecho quer para a mãe quer para o bebé. É importante que a mulher tenha conhecimento destes riscos, de modo a que possam ser minimizados com uma vigilância obstétrica adequada e a adopção de comportamentos e estilos de vida saudáveis que devem ser iniciados idealmente antes da concepção.

 

 

Dr. Gustavo Mendinhos

 

Hospital da Luz Lisboa, Hospital da Luz Clínica da Amadora,Hospital da Luz Clínica de Oeiras, Hospital Beatriz Ângelo - Loures.

8Comentários

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    Ana Cordeiro
    Ago 14, 2018

    Boa noite, passei a seguir a vossa página do qual me ilucida de algo mais que pesquiso. Tenho 41 anos, sou mãe de uma linda menina de 22 anos do meu primeiro casamento do qual correu tudo maravilhosamente bem. Casei novamente e Há básicamente ano e meio que tento engravidar, digamos que o tenho conseguido com sucesso por 3 vezes mas sempre que chego às 8 semanas tenho aborto expontâneo. Sou residente em Londres e na 2a vez tentei que se fizessem algum tipo de exame para saber qual o problema, a resposta é que são exames muito caros e a causa poderia ser da minha idade. Teria de tentar novamente e ao 3o aborto iria para investigação. Como é possivel em pleno sécXXI ainda existir este tipo de acontecimentos???? em que nos deixam sofrer e sempre com medo. Felizmente já tenho data marcada para exames. Mas ainda hoje me sinto a sangrar como se tudo estivesse a aconteceu.... Dizem para ter pensamento positivo, mas é quase impossivel apagar o ficheiro e continuar como se nada se tivesse passado.

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    Susana Castelão
    Set 21, 2018

    Fui mãe pela terceira vez com 43 anos. Os mais velhos têm 15 e 13 anos. O ser mãe após 13 anos novamente é uma felicidade que não sei explicar. Estou muito grata por ter este bebé.

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    Pulguinhas
    Set 26, 2018

    olá Ana, compreendemos muito a sua situação que nos expõe e não podíamos estar mais de acordo. Acompanhar a gravidez com todos os exames e tranquilizar as mães seria um avanço muito desejado. Fazemos votos de que consiga cumprir este sonho. Um beijinho

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    Pulguinhas
    Set 26, 2018

    Muitos parabéns Susana! Ficamos muito felizes por conhecer a sua experiência e agradecemos a partilha que ajuda a dar esperança a futuras “mães depois dos 40”. Um beijinho

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    Susana Isabel
    Out 1, 2018

    Tenho 45 anos e fui mãe de um menino há mês e meio e já tenho uma filha com 24 anos. Comecei as tentativas de engravidar há 3 anos atrás e pelo caminho tive 2 abortos espontâneos e uma interrupção médica de gravidez às 16 semanas devido a graves problemas da bebé. O meu conselho às mães que como eu passam por estas experiências é acreditar e nunca desistir. Às vezes parece que o mundo todo cai em cima de nós e é uma dor insuportável...perder um filho é algo que nunca se supera e nada nem ninguém o substitui, mas quando se deseja muito é preciso ser muito resiliente.

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    Pulguinhas
    Out 4, 2018

    Que historia de superação e coragem. Muito obrigada por partilhar connosco a sua força e vontade de acreditar que, temos a certeza, vai inspirar outras futuras mães ❤️ um beijinho!

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    Nélia de Jesus
    Nov 15, 2018

    Tenho quase 44 anos e fui mãe quase à 2 meses,sou mãe de quatro filhos

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      Pulguinhas
      Jan 4, 2019

      Muitos parabéns e muitas felicidades, Nélia. Obrigada por partilhar a sua experiência e ajudar a trazer tranquilidade a mães que passam agora por experiências semelhantes.

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