Quando está na hora de largar as fraldas?

Quando está na hora de largar as fraldas?



Carmen Garcia, Enfermeira, autora de “A Mãe Imperfeita” é mãe de um Pulguinha de três anos que, como todos os Pulguinhas, está no seu caminho para descobrir a melhor altura e a melhor forma de largar as fraldas. Para sabermos mais sobre esta etapa da vida dos bebés, sobre o que podemos fazer para ajudar e sobre o que não devemos de todo fazer, ficámos à conversa.  



O desfralde é um marco importante no desenvolvimento do bebé, não é?

Eu acho que sim e por mais do que uma razão… Em primeiro lugar porque mesmo eles parecem sentir que o chichi no bacio os torna “meninos crescidos”, marca quase o final da fase de bebé. E depois porque a pressão externa é incrível. Irritante e incrível. Posso dizer que se ganhasse um euro por cada vez que ouvi um “três anos e ainda de fraldas?” estávamos a ter esta conversa nas Maldivas. Outra coisa também muito importante, apesar de não estar relacionada com o desenvolvimento, é que o desfralde permite alguma folga orçamental porque, queiramos ou não, as fraldas são caras. Eu tenho o Pedro a desfraldar mas ainda tenho o João com fraldas e noto bastante no final do mês quando faço “contas à vida”.



Como está a ser a experiência de largar as fraldas aí por casa?

Muito melhor agora. Já tínhamos feito uma tentativa o Verão passado, mas o Pedro não estava preparado. Depois do primeiro descuido começou a fazer retenção urinária e se o deixássemos dez horas de cuecas eram dez horas que ele estava sem fazer chichi. Desistimos ao fim de uns três dias. Este ano voltámos a tentar e correu bastante melhor, especialmente depois de ele regressar à creche. A educadora e a auxiliar da sala têm sido fundamentais neste processo. Posso dizer que o chichi está resolvido de dia e de noite e estamos agora na fase dois: o cocó. Veremos como corre…







Há muita pressão para que os bebés deixem as fraldas de forma “igual”, não há?

A ciência diz-nos hoje que, apesar de vivermos no século XXI, as expectativas dos pais em relação ao desfralde continuam a ser pouco realistas: segundo um estudo Americano, 70% das mães acredita que perto dos 18 meses as crianças estão preparadas para deixar as fraldas. Acontece que, se isto é verdade para uma minoria, é mentira para a esmagadora maioria. E sabem o que é que expectativas irreais provocam? Frustração, castigos e excesso de estimulação que, muitas vezes, descambam em situações de incontinência urinária, enurese, infecções urinárias recorrentes e obstipação que pode, em alguns casos, evoluir para quadros graves.



Contar com uma idade para forçar este processo de largar a fralda faz sentido?

Este mesmo estudo, indica que 53% dos pais iniciou o desfralde tendo em conta apenas a idade cronológica das crianças e isto é absolutamente errado. Não havendo receitas ideais na maternidade, parece mais ou menos consensual aguardar-se que a própria criança demonstre interesse para começar o treino “do bacio”. Esperar que as crianças tenham habilidade psicossocial para começar é meio caminho andado para o sucesso.  O desfralde é um processo importante, como já falámos, mas não existe uma idade obrigatória. A ciência diz-nos ser suposto que, salvo patologia que o impeça, as crianças atinjam controlo total de esfíncteres até cerca dos 4.5 anos. Então podemos ir com calma, certo?



Então o que podem fazer os pais para ajudar os seus bebés a largar as fraldas?

A nós, pais, cabe-nos ser flexíveis e tentar minimizar a ansiedade dos nossos filhos. Isso e não nos esquecermos que eles aprendem essencialmente por imitação. Há um outro estudo, de 2004, refere que, aos 24 meses, apenas 24.1% das crianças conseguem um controlo diário que lhes permite não necessitar de fralda. Então, sabem o que vos digo? Não se deixem pressionar nem pressionem os vossos filhos. Mostrem-lhes a sanita e o bacio, expliquem, mas deixem que sejam eles a comandar o processo de desfralde e que o façam ao ritmo deles. Os castigos e “ofensas” nos descuidos (ex. “és uma bebé”) estão desaconselhados. Ah, da mesma forma há alturas da vida das crianças como, por exemplo, a chegada de um irmão, que não são ideais para este tipo de mudança.

Carmen, trinta e três anos, enfermeira numa Unidade de Cuidados Intensivos e mãe de dois rapazes com vinte meses de diferença, ambos com nomes profundamente originais: Pedro e João. O Pedro, agora com três anos, tem ainda a particularidade de ser surdo profundo com implante coclear desde Março de 2019.
Acontece que, um dia, depois de olhar para o espelho e perceber que o cabelo já não sabia o que era um corte e que o buço precisava de se reencontrar com a cera, inspirou profundamente o cheiro a leite azedo da própria camisola e decidiu dar uma espécie de grito do Ipiranga das mães: criou uma página de Facebook onde assumiu publicamente a sua imperfeição e, potenciada pela privação de sono, foi escrevendo sobre a maternidade real.
E é isso que tem feito ao longo dos dois últimos anos nas redes sociais: mostrar que as mães reais não são, nem têm que ser, perfeitas. Tal como os próprios filhos. Porque, ainda que nos tentem enfiar a perfeição pelos olhos adentro, a maternidade não é monocromática, não tem sempre que fazer pendant e as mães, apesar de donas de uma força inigualável, vivem quase sempre no limite do cansaço e à beira de um ataque de nervos.

Instagram: @mae.imperfeita._





Um bom artigo sobre este tema:
MOTA, Denise M.  and  BARROS, Aluisio J. D.. Toilet training: methods, parental expectations and associated dysfunctions. J. Pediatr. (Rio J.) [online]. 2008, vol.84, n.1 [cited 2019-12-05], pp.9-17. Available from: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0021-75572008000100004&lng=en&nrm=iso>. ISSN 0021-7557.  http://dx.doi.org/10.2223/JPED.1751.

Outros artigos úteis:
Polaha J, Warzak WJ, Dittmer-Mcmahon K. Toilet training in primary care: current practice and recommendations from behavioral pediatrics. J Dev Behav Pediatr. 2002;23:424-9.
Schmitt BD. Toilet training: Getting it right the first time. Contemp Pediatr. 2004;21:105-22.
Blum NJ, Taubman B, Nemeth N. Why is toilet training occurring at older ages? A study of factors associated with later training. J Pediatr. 2004;145:107-11.       
Fleisher DR. Understanding toilet training difficulties. Pediatrics. 2004;113:1809-10
Caldwell P, Edgar D, Hodson E, Craig J. Bedwetting and toileting problems in children. MJA Practice Essentials-Paediatrics. 2005;182:190-5.
Shaikh N. Time to get on the potty: Are constipation and stool toileting refusal causing delayed toilet training? J Pediatr. 2004;145:12-3.


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