Voltar a trabalhar depois do nascimento do bebé

Voltar a trabalhar depois do nascimento do bebé

Ter de começar a deixar a Pulguinha nos avós, no berçário ou na ama é uma das fases mais complicadas para os pais. Numa altura em que a Pulguinha ainda é tão pequenina, frágil e dependente, ter que a entregar a outros para que passem a maior parte do dia com o bebé, é muito complicado. Além da tristeza e saudades naturais, há por vezes aquela sensação de culpa e de perda que fica a incomodar até podermos voltar a abraçar o bebé nos braços.

 

Há quem defenda que esta culpa que se sente é um sinal de que devemos ‘reavaliar’ as escolhas feitas de regressar ao trabalho, como se esta fosse na verdade uma escolha e não uma imposição. Regressar ao trabalho é muitas vezes, por questões puramente práticas, o único caminho.

 

O argumento para que se continue com o bebé por tanto tempo quanto possível é simples de compreender. As mães, nos primeiros anos de vida da Pulguinha, são o garante de alimento (idealmente amamentando em exclusividade até aos 6 meses) mas também são o garante da estabilidade emocional. É a mãe que acalma, tranquiliza e torna mais regulares e conhecidas as experiências com um mundo completamente novo. Deixar de ter o cheiro, o calor, a voz e o colo da mãe é difícil para todos.

Enquanto a sociedade continuar a sobrevalorizar o mercado de trabalho e a valorizar tão pouco a maternidade, esta vai continuar a ser uma experiência difícil de gerir. Para tentar desmistificar um pouco e tornar menos dramática esta mudança,  Falámos com Rosa do Amaral para descobrir novas estratégias que podem ajudar a simplificar na altura de voltar a trabalhar depois do nascimento do bebé:

 

Uso tempo laboral e/ou leis no regresso da mãe ao trabalho 

 

De acordo com os diferentes empregadores e com o apoio das leis que já existem as mães podem (caso assim queiram), tentar fazer uma rentrée pausada e com a possibilidade de usufruir de:

- jornada continua

- saída para amamentação

- dias de férias espalhados

- trocas de pontes ou turnos

- etc

Com estas estratégias as mães podem ir ajustando o bebé à sua nova escola de forma progressiva, guardando para si próprias a oportunidade de também elas se irem adaptando a um mundo que já não vai girar 100% em torno do seu bebé. Se a mãe conseguir fazer esta transição de forma progressiva, o resultado é positivo para todos. Estar menos tempo com o bebé vai sem dúvida nenhuma fazer a mãe sentir-se dividida entre o que deve e tem de fazer e o que quereria fazer. Está na criatividade da mãe gerir o tempo e o regresso ao trabalho (claro que com a colaboração do empregador), de uma forma que lhe permita manter este laço tão especial pelo máximo de tempo possível.

 

 

Como manter a amamentação natural?

 

Se a creche for perto do trabalho a mãe pode tentar assegurar os horários de mama durante as suas pausas, prolongando o horário e envolvendo o pai no processo de recolha do bebé. Pode combinar um regresso em que alguns dias ainda trabalha de casa e assim consegue nesses dias estar mais tempo com o bebé, pois cumpre o horário consoante consiga.

Se tem mesmo de voltar ao trabalho, encontre que solução encontrar, vai sempre sentir um pouco de pressão, de culpa, de sentimentos ambíguos. Faz parte. Mas, não se deixe embarcar nessa viagem, martirizando-se e perdendo a alegria que este momento trás. Se tem de, então bora lá, e seja optimista, invista na qualidade e na conquista de tempos ao tempo.

 

Como repensar as prioridades e conseguir ganhar mais tempo para a família?

 

O problema de muitas mães no regresso ao trabalho é que vão acumular muitas funções e com isso perder aquele tempo mais único que era dedicado ao bebé. As mães que vão trabalhar fora de casa, começam a ter de ir às compras para a casa em horário pós-laboral, têm de arrumar a casa e as tarefas inerentes à gestão do lar em horário também ele pós-laboral e nesta gestão assoberbada de acumulação de tarefas, o bebé que é prioridade parece perder-se entre tantos “tenho de”. É mental esta nossa luta e esta gestão entre o tenho de e o certo, e aquilo que nos chama mais alto.

Claro que uma mãe que tenha a seu cargo o grosso das tarefas domésticas, ao escolher o bebé, escolhe deitar-se tarde, acumular tarefas para mais tarde, adiar aquilo que lhe é inevitável e com isso escolhe entrar numa luta entre o que quer fazer e a avaliação do cansaço. Esta luta não é justa se a mulher assumir que com um bebé em casa, e com ela a trabalhar a tempo inteiro, todas as tarefas têm de ser feitas da mesma maneira, com a mesma perfeição ou ordem dos tempos pré-bebé.

As mães têm de conseguir trabalhar dentro de si um alívio às tarefas (delegação), uma diminuição da exigência ou perfeccionismo para com as tarefas (há mamãs que continuam a passar a ferro os lençóis todos, os turcos, as cuecas, ou a querer um chão sempre limpo ou imaculado), e um respeito maior pela sua própria pessoa e grau de cansaço com um constante reforço do que realmente importa.

Ou seja, a mamã que regressou ao trabalho, tem de dar a si própria e ao bebé, durante os primeiros tempos, a oportunidade de namorar este tempo de forma única, ainda que dentro das constricções de ter voltado a trabalhar. Uma casa, com um bebé, ou uma criança, ou várias crianças, que esteja arrumada, não é bom sinal. Não é suposto que cresçam seres estranhos por baixo dos sofás mas, para muitas de nós, o conceito de limpeza e/ou arrumação precisa de ser repensado, pois de outra forma será muito difícil trabalhar a qualidade de tempo e o acompanhamento ao bebé, dado o malabarismo que caracteriza a maior parte das mães e das vidas familiares de hoje em dia.

 

 

 

Como criar rituais em família para aproveitar ao máximo os momentos em conjunto

 

É importante na nossa cultura, um pouco culpabilizante, perceber que temos de incluir nas nossas vidas momentos verdadeiramente prazerosos, como rituais que se instituem nas rotinas familiares e que proporcionam a paz de se sentir a qualidade das relações e com isso reduzir um pouco a dicotomia da vivência partilhada entre família e trabalho. Temos de sentir que o tempo conjunto consegue em si mesmo ser uma recompensa para o que se gastou em outros afazeres. Temos de saber gerir esse tempo e a sua existência para que seja sempre uma prioridade na nossa vida cotidiana.

A gestão da vida não é fácil e tal como os bombeiros são constantemente chamados para ir apagando fogos, que terão as suas devidas prioridades ao longo do dia ou das semanas e com alguma facilidade teremos tendência para remeter para o fundo da pirâmide o que mais nos importa, na esperança de que um dia vou poder, vou fazer. Esta gestão esperançosa mas de alguma forma descuidada do nosso bem-estar causa muitas sensações de culpa internas e dúvidas relativamente à qualidade do tempo familiar.

Sou defensora de se criar diariamente, semanalmente, mensalmente, rituais específicos a cada família e aos seus gostos, de forma a assegurar que nenhum “fogo” distrai os bombeiros de serviço. Se temos rotinas, teremos mais facilidade em manter esses hábitos e não nos deixarmos cair no “loop” de uma vida fora do nosso controlo.

 

 

 

Preparar a adaptação gradualmente

 

Os novos horários e os novos espaços podem ser desafiantes mas uma adaptação progressiva vai tornar tudo mais simples. Começar por deixar a Pulguinha no berçário durante algumas horas no primeiro dia, umas horas e uma refeição no dia seguinte e depois deixando que fique até dormir uma sesta é uma forma de apresentar gradualmente ao novo ambiente. Levar a Manta Swaddle, o Saco de Dormir ou a Fraldinha ó-ó de que mais gosta, pode ajudar a Pulguinha a sentir-se mais confortável com os mimos que lhe são familiares.

 

Nota final: Aconselho as mães a encontrarem paz, dentro de si próprias, relativamente ao seu regresso ao trabalho. Se tem de ser, se a família necessita desse regresso, seja porque razões for, então, dê paz à sua decisão e crie alternativas para tornar mágico o tempo de reencontro, de presença, sem se perder em tarefas menos importantes ou que podem ser geridas em momentos diferentes. Abrace as suas versões todas, mulher, mãe, profissional, funda-as e aprecie a sua Vida. Força, é uma luta comum a todas nós que tentamos gerir essa miríade de papéis em que nos distribuímos, em que nos dividimos até não haver resto. Bem hajam as mulheres que o continuam a fazer e a assegurar o mundo que nos rodeia.

 

 

 

 

Sobre Rosa do Amaral

Psicóloga Clínica, PhD

Intervenção Familiar, de Casal e Reabilitativa

Clínica Europa em Carcavelos

http://www.rosadoamaral.net/

http://onorteosrepare.blogspot.pt/

www.facebook.com/Nós-Familiares-Terapia-e-Apoio-Familiar

 

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