SQUID GAME, quando o macaquinho do chinês deixou de ser uma brincadeira de crianças
Há já algum tempo que as paredes de casa e da escola deixaram de ser sinónimo de tranquilidade absoluta. Os desassossegos de hoje chegam-nos muitas vezes sem ter de passar pelo portão da escola ou tocar à campainha, vêm em forma de bytes e são partilhados à velocidade de um clique, deixando aos pais a difícil tarefa de lidar com uma realidade que desconhecem ou cujo ritmo não conseguem acompanhar. SQUID GAME é o mais recente fenómeno deste desassossego. Trata-se de uma série Sul-coreana em que centenas de jogadores competem por um avultado prémio monetário, defrontando-se em vários jogos infantis. Inicialmente, parece até difícil enquadrar a classificação da série para maiores de 16 anos, até que percebemos que, naqueles jogos, ser eliminado significa perder a própria vida e que isso acontece sem poupar o espectador a toda a brutalidade das imperfeições humanas e de várias mortes violentas.
A exposição precoce e continuada a programas violentos está associada a um aumento dos níveis de ansiedade e de comportamentos agressivos, mantendo-se este último até à idade adulta. Este risco é mais imediato para crianças que já apresentam algumas fragilidades, mas não é eliminado por factores como o nível socioeconómico da família, a capacidade cognitiva ou o estilo parental. Tudo isto reforça a importância de evitar a exposição precoce das crianças a este tipo de conteúdos.
O grande perigo de SQUID GAME: é a exposição à violência, que surge de forma dissimulada. Apesar de a violência propriamente dita não ser muito diferente do que encontramos em reality shows, filmes de sábado à tarde ou até nos telejornais, a presença de jogos infantis pode criar a ilusão de que se trata de um conteúdo inofensivo, quer para pais com menos acesso à informação, quer para as próprias crianças, que podem não saber o que vão encontrar. Ainda que a procura não seja feita “ao engano”, é importante compreender que não se trata de conteúdo adequado aos mais novos. Os pais podem ouvir e compreender os desejos e motivações dos filhos (e.g. “todos já viram”, “falaram disso no Youtube”), mas não devem permitir que visionem a série, explicando que não é um programa para crianças. Esta conversa é também uma oportunidade para preparar a criança para outras situações em que pode “tropeçar no SQUID GAME” – e.g. partilhas de vídeos na escola, histórias que outros lhes vão contar ou a própria simulação dos jogos. É importante perceber que a proibição ou o controlo do que os nossos filhos vêem na televisão ou no tablet não são garantias absolutas, e que apesar da ansiedade que nos pode causar, nunca vamos conseguir controlar tudo. Aceitar as emoções que vivemos enquanto pais e abrir espaço para uma conversa em tom seguro e acolhedor pode garantir que estaremos entre os primeiros recursos que os nossos filhos procurarão, quando confrontados com situações que não conseguem gerir.

Squid Game e as crianças
Ainda que a capacidade para distinguir o real do imaginário surja por volta dos 5/6 anos de idade, os pais podem ajudar a criança a fazer essa distinção, explicando que o que vê nos filmes, séries ou desenhos animados não é real, não existe, não está a acontecer e não magoa. Importa compreender que estes fenómenos geram um conjunto de estímulos mais ambíguos (memes, vídeos no Youtube, tiktoks…) que podem dificultar a distinção entre real e imaginário (as crianças partilham, por vezes, no consultório “ isto é baseado numa história que aconteceu mesmo… até vi a notícia no Youtube”). O facto de a criança ser capaz de perceber o que é real, ser “muito madura” ou ter “uma inteligência acima da média” não significa que vai ser capaz de lidar com sentimentos de insegurança ou dúvida suscitados por imagens que viu e que podem surgir repetida e intrusivamente no seu pensamento.
É importante que os pais estejam atentos a alterações comportamentais que possam sinalizar estas dificuldades. Mudanças no padrão de sono ou de apetite, medos, maior agitação motora, comportamentos de recusa ou comportamentos agressivos podem indicar que está na altura de abrir as portas da comunicação, perceber o que está a gerar essas alterações e guiar o seu filho na busca de possíveis soluções ou formas de se proteger. Procurar outros amigos, propor brincadeiras diferentes ou conversar com um adulto de confiança sobre medos que possam surgir são sugestões complementares, mas o mais importante é manter a atenção e a disponibilidade para comunicar, dando-lhes as ferramentas de que vão precisar para se proteger, num ambiente que é muitas vezes imprevisível.

Squid Game e os adolescentes
À medida que avançamos na adolescência, a comunicação vai-se tornando cada vez mais importante, porque a proibição deixa de ser uma opção eficaz. Os adolescentes estão expostos a uma variedade maior de situações e, para além disso, sabemos que, se quiserem ver algo… vão acabar por consegui-lo. Esta pode ser uma realidade difícil para alguns pais, mas não se trata de desrespeito ou indisciplina. É importante enquadrar estes comportamentos na fase de desenvolvimento em que ocorrem. Esta fase envolve uma maior aproximação aos pares e a comportamentos diferentes dos que são experienciados em casa, levando à construção saudável da sua autonomia e identidade.
Isto não significa que a adolescência seja uma fase livre de medos e incertezas, ou que o adolescente já está preparado para ver este tipo de conteúdos de forma autónoma e desprendida. Caso o seu filho adolescente (a partir dos 12 anos) expresse vontade de ver a série, pode ser uma boa opção fazê-lo em conjunto consigo, criando a oportunidade de enquadrar e discutir o que vai surgindo a cada episódio. A par do conteúdo violento, a série é rica em dilemas que podem suscitar o diálogo. Não se esqueça contudo de aceitar e respeitar as emoções e ideias expressas pelo seu filho, mesmo que não concorde com elas ou que sinta de outra forma. A ideia não é dar uma palestra ou travar uma batalha de argumentos, mas sim criar um espaço de reflexão crítica e um “porto de abrigo”, que permitam ao seu filho pensar de outra forma sobre um assunto ou ir ter consigo a meio da noite porque, apesar dos seus 13 anos de idade e pelos na barba, teve um pesadelo.
Por último, gostaria de lembrar que, apesar de este texto ser sobre a série SQUID GAME, poderia ser sobre uma mão cheia de outros conteúdos com que somos confrontados diariamente e que nos devem preocupar pelo menos tanto quanto esta série… A par de tudo o que já foi dito, é importante que a exposição continuada a imagens violentas não nos leve à dessensibilização. É importante que cenas como as daquela série ou imagens violentas da vida real nos continuem a chocar e nos levem a sentir empatia pelo outro, em respeito pelos valores humanos.

Marisa Alves – Psicóloga Clinica na Consulta de Ansiedade do PIN

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