A pediatria recomenda o uso do Sling?
Conversámos com António Pires, médico Pediatra, pai de seis, avô de outros seis Pulguinhas, e com uma vida feita de experiência sobre o que faz os bebés felizes, e o que é que é indispensável no seu dia a dia. Entre as várias formas de alimento de que um bebé precisa, o colo é uma das principais, apesar de nem sempre o percebermos. E foi sobre esse colo especial que falámos na nossa entrevista:
Doutor António Pires, muito obrigada por estar connosco. É um prazer enorme poder ouvi-lo sobre o colo que tão bem faz aos bebés. Tendo por base a sua larga experiência com as famílias, acha que o papel do Sling ainda é subestimado?
Obrigado pelo convite. É uma honra poder participar e partilhar estes conceitos com vocês. Pergunta se o Sling é subestimado. Eu diria que ele está a começar a ser considerado. Nós, por questões culturais, de séculos, passámos por muita cultura de abandono, de muito distanciamento físico, da mãe e dos cuidadores, em relação ao bebé.
Só muito recentemente estamos a começar a resgatar a importância do contato físico desde o nascimento, como uma forma de organização psíquica e física do bebé, e o Sling é uma ferramenta dentro desse cuidado a proporcionar ao bebé.
Quais são os principais benefícios da utilização do Sling quer para o bebé, quer para os pais, quer para outros familiares que façam uso deste adereço tão importante na maternidade?
Eu tenho estes cabelos grisalhos e são já muitos anos atendendo famílias e atendendo bebés, e uma coisa muito importante e muito comum, que eu diria que é inerente a todos os bebés, tanto aqui no Brasil, como em Portugal ou em qualquer outro lugar do planeta, são as cólicas.
As cólicas, que surgem no primeiro, segundo e até ao terceiro mês, são ainda consideradas como algo normal, sinal de alguma imaturidade, de uma adaptação e de se saber que “aquilo vai passar”, mas eu nunca aceitei essa ideia de que as cólicas fossem normais.
Não consigo imaginar que o bebé possa nascer com um defeito assim. Por que é que um bebé nasceria tendo cólicas e chorando e necessitando de medicamentos, compressas e outras coisas. Durante muitos anos pesquisei em diferentes culturas a ocorrência das cólicas e o que eu pude observar foi justamente que nas culturas em que os bebés passaram a ter um contato imediato com o corpo materno, logo após o nascimento, imediato e constante/ permanente, foram as culturas onde não havia a queixa da dor de barriga e das cólicas.
Então, com base nisso, há 7 anos eu resolvi pesquisar e começar a usar o Sling logo após o nascimento para testar esta hipótese. Foi surpreendente como no primeiro ano de um uso mais sistemático do Sling, nas famílias que eu acompanho, mostrou que o uso do Sling reduziu em quase 100% o uso de medicamentos para tratamento de cólicas.
Os bebés passaram a dormir muito melhor, passaram a chorar menos, a demandar menos e tornaram-se bebés muito mais organizados. Eu posso não explicar exatamente como é o mecanismo fisiologicamente, mas eu consegui entender (e vejo isso na experiência que é grande e tem muitos anos) a importância do contacto na prevenção de várias questões relacionadas com as cólicas, com o sono, o choro e outros incómodos do bebé. Então, para mim, a confirmação da importância do uso Sling vem ao longo destes 6 quase 7 anos em que, na medida em que as famílias adotaram uso sistemático do Sling como forma de contacto constante permanente com bebé, diminuiu muito a necessidade de medicamentos. Há quase 7 anos que eu não prescrevo medicamentos para cólicas. É um resultado fantástico.

O único medicamento aqui é o colo e o contacto pele a pele. Falámos aqui nos benefícios que a utilização de babywearing tem no alívio das cólicas, no sono… há mais benefícios para as famílias que considere importante realçar?
É muito importante o entendimento do significado do Sling ou de uma outra forma de contacto. É que o bebé passou próximo de 40 semanas dentro do útero, onde ele esteve exposto durante 24 horas por dia a estímulos como o batimento do coração da mãe, os sons da respiração da mãe, os ruídos do intestino, a voz, a voz paterna, os sabores, o bouquet da circulação placentária, estimulando os sensores, até aquele aspecto do bebé estar numa contenção, entre os braços e as pernas, em que ele sente o contacto uterino…
Ao nascer, o bebé vem com quase 40 semanas de experiências muito constantes e permanentes, da entranha materna. Se entendermos que ao nascer o bebé sofre um corte dessas experiências e isso para ele pode ser um susto, pode ser um motivo de desconforto muito grande e eu entendo que proporcionar experiências sensoriais parecidas com aquelas do útero, que são dadas pelo contrato com a pele, com corpo da mãe, farão com que esse bebé que sinta muito mais organizado e muito mais confortável.
Imaginar que um bebé que saiu de dentro do útero seja colocado em algum lugar distante, dentro de um berço, ou em qualquer lugar que ele não tenha essa referência do contato, eu considero que isso é um abandono, e nós abandonamos bastante. Não porque queiramos abandonar, mas porque a nossa cultura nos diz que o seguro é pegar num bebé que acabou de nascer e colocá-lo num berço. É absurdo. Não consigo imaginar.
Costumo dizer que o bebé, quando nasce, a distância dele para o corpo materno é como a distância do cordão umbilical. O tamanho do cordão umbilical permite que coloque o bebé aqui (no peito da mãe) e assim, quando o bebé está próximo do corpo materno é como se tivesse ainda o cordão umbilical “ligado”. Esse cordão “virtual” dá uma ideia da distância do corpo do bebé para o corpo da mãe, ou de um outro cuidador.

Então o Sling é uma forma de continuar com este cordão umbilical tão importante, no primeiro trimestre, mas também ao longo do tempo, não é só para os bebezinhos...
Existe um conceito de que se um bebé fica muito próximo, ou se nós o acolhemos quando chora ou se lhe damos muito colo, estaremos estragando esse bebé, que é um conceito completamente equivocado. É um conceito que nos leva ao abandono.
Podemos imaginar que um bebé está dentro do útero, dentro da mãe, e vai nascer e aos poucos será afastado, e ficará a uma distância maior, mas não imediatamente após o nascimento. O nascimento em si, quando sai do útero, o bebé já está a viver um grande afastamento, porque, por mais próximo que ele esteja, já há um espaçamento.
Diria assim que o importante, na verdade, não é o Sling em si, o importante é o contacto permanente. Mas se eu falo para você: “Rita, fica com o seu bebé no colo durante três meses que isso será muito bom”. Você estará com as mãos ocupadas o tempo todo, você não poderá fazer outras coisas, e o que quer que precise de fazer, vai precisar de deixar o bebé em alguma superfície ou com alguém e aí, possivelmente, o bebé já vai chorar e ou depois de algum tempo você terá tendinites e será difícil suportar.
Olhando para as culturas africanas, para as culturas indígenas brasileiras, para as culturas asiáticas, vê-se que aqueles bebés estão em tipóia, na capulana, dependendo da cultura tem um nome diferente, que aqui chamamos de babyweraring e de Sling, que é uma forma de dar esse contacto enquanto as suas mãos continuam livres.
Então temos um lema em relação ao contacto e ao que o Sling proporciona e que é: “Sling é vida”.

Tão bonito. Falámos aqui dos benefícios, incluindo este de ser um kit mãos-livres, que nos permite continuar a fazer o que precisamos de fazer. Há alguma situação específica em que desaconselha a utilização do Sling?
Não, não tenho uma situação para desaconselhar. Nós podemos imaginar que uma mulher que acabou de ter um parto, seja um parto natural, vaginal ou cesariana, que imediatamente após o nascimento do bebé, essa mulher poderá estar com dores ou desconforto, e que, nos primeiros dias, ela não terá uma condição física para acolher o bebé a não ser quando estiver deitada.
Ao longo dos anos em que tenho feito aconselhamento dos casais, eu oriento de forma a que, ainda na gestação, o companheiro ou companheira, treine o uso do Sling como forma de aprender os nós e os ajustes, usando uma almofada ou até um boneco. Desta forma, após o nascimento, aconselho que o outro cuidador possa acolher esse bebé no Sling e caminhar, sair um pouco, andar com o bebé, até que a mãe tenha também condição de fazer uso do Sling.
O Sling não é só uma coisa para a mãe, é para o bebé, e o contacto, seja com a mãe ou com o outro outro cuidador vai funcionar da mesma maneira. A única restrição seria esta, a da incapacidade temporária dessa mãe, por conta da sua condição física.
Uma coisa que gostaria de lembrar, que são conceitos que vocês conhecem bem, é que nós falamos deste uso do Sling de uma maneira quase permanente (em que pode tirar o Sling quando estiver deitada e o bebé fica à mesma em contacto consigo) é muito importante nos três primeiros meses de vida, que é o período correspondente à extero-gestação.
Costumo dizer que a gestação, as 40 semanas, será com esta mãe, a gestante, isso não é transferível, mas que o período da extero-gestação pode ser vivido pelo outro cuidador. O benefício secundário aqui é que o uso do Sling pelo outro cuidador também contribui muito para a formação do vínculo desse outro cuidador com o bebé, porque envolve mais o cuidador.
Isto é uma coisa extremamente interessante, também dentro do meu trabalho na abordagem Pikler. Esse período dos três meses iniciais é o período a que corresponde a formação do vínculo. Eu defendo que o bebé no início da vida não deve ser exposto a estímulos como móbiles, ou aos tapetes que têm arcos com móbiles pendurados, nem a coisas externas que façam barulho ou que tenham luzes. Isto porque o bebé não tem essa percepção da visão de fora. Para o bebé o mais importante é aquele campo de visão curto, em que ele vê o seio materno, em que começa a identificar a face e a expressão dos cuidadores.
Nestes três primeiros meses é importante que você acolha e esteja com muita presença e foco em todos os cuidados. Seja na hora do banho, seja na troca de fralda, importa que você consiga exercitar a coreografia dos cuidados durante cada um desses momentos. Quando o bebé chega aos três meses há um momento em que ele sinaliza que está pronto para começar a ter o distanciamento, no momento que ele vai para o brincar livre ou vai para o tapete das atividades. A partir daí ele vai, aos poucos, se distanciando cada vez mais desse contato com o cuidador.

Resumindo esta grande aula sobre o porquê da importância do colo, podemos dizer que o Sling é como uma incubadora natural, que dá ao bebé as mesmas sensações que teve durante o tempo do útero. Já vimos que nós nascemos antes do tempo, não é… (risos)
Diria que fez em poucas palavras uma síntese do que disse aqui. Poderíamos dizer que a gestação humana dura um ano, sendo nove meses dentro do útero e três meses na extero-gestação, e o Sling será um grande aliado neste momento.
Onde é que podemos continuar a segui-lo para acompanhar estes conselhos sábios?
O trabalho do Pequenos e Plenos está nas redes sociais, no Instagram, no Facebook onde temos uma interação muito grande com pessoas de todo o planeta e temos uma troca muito grande com Portugal.
Temos os cursos , de Preparação para a Gestação, do Nascimento e do Desenvolvimento dos Bebés, e o Curso de Alimentação Complementar Livre, que é um curso em que nós temos alunos de Portugal e que é um grupo muito querido.
Fora do Facebook e do Instagram, tenho o aprofundamento dos temas em vídeos e podcasts que ficam no YouTube ou no Spotify .
É muito fácil aceder ao Pequenos e Plenos e, para mim, é uma satisfação muito grande poder manter esta interação e conhecer que nos segue com maior proximidade.
Não percam mais informações sobre os benefícios dos Slings e todos os modelos. Assistam a esta entrevista com o Dr. António Pires e saibam mais sobre a Pequenos e Plenos no YouTube Pulguinhas.

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