Gritar com um bebé: o silêncio que fere mais do que o choro
Há momentos de cansaço extremo em que tudo parece colapsar. As noites longas, o sono interrompido, os choros que não cessam. E é nesses momentos que, por vezes, surgem reacções impensadas. Gritar com um bebé pode parecer um desabafo. Mas não é. Pode ser um marco profundo e silencioso no desenvolvimento emocional daquela criança.
Recentemente, uma mãe partilhou que o pai, exausto, gritou com o seu bebé de apenas dois meses para que ele parasse de chorar. E ele parou. Ficou em silêncio. Mas o que pareceu ali uma pausa de alívio, foi na verdade um sinal de que o sistema nervoso do bebé entrou em "shutdown". Não foi acalmia, foi apenas o medo a instalar-se.
O que importa saber?
A resposta ao trauma
O sistema nervoso dos bebés ainda está em formação e reage de forma intensa ao ambiente. Quando um adulto grita, especialmente uma figura de vínculo como pai ou mãe, o corpo do bebé aciona mecanismos de sobrevivência: luta, fuga ou congelamento. No caso dos bebés mais pequeninos, é comum entrarem em modo de "congelamento" (freeze), onde param o choro, bloqueiam o movimento e ficam hipoactivos. À superfície, pode parecer que "se acalmaram". Mas, biologicamente, estão a desligar-se. E isto é muito prejudicial.
Os estudos comprovam: as palavras ferem
O professor Eamon McCrory, da University College London (UCL), tem vindo a estudar os efeitos do abuso verbal e emocional na infância. Segundo este especialista e os diversos estudos que tem desenvolvido e publicado, as crianças expostas a gritos, ameaças e agressividade verbal apresentam alterações nos circuitos cerebrais ligados ao processamento de ameaças e recompensas. Isto significa que o cérebro aprende a estar em estado de alerta constante, mesmo quando não há perigo real. Imaginas o que é viveres sempre com medo? É como estas crianças crescem.
Estes dados foram reforçados no relatório "Words Matter", que foi apresentado no Parlamento Britânico em 2024, e neste relatório vários especialistas sublinharam como o abuso verbal infantil é uma das formas mais prevalentes de maus-tratos, com consequências comparáveis ao abuso físico.
Na Pulguinhas, acompanho milhares de famílias há quase 20 anos e sei que muitas destas situações não acontecem por maldade, mas por desgaste. As noites mal dormidas, a pressão, a falta de rede de apoio, e a ideia enraizada de que o bebé "tem de aprender" acabam por gerar atitudes que deixam marcas. Mas estas atitudes não são inevitáveis. E podem ser eliminadas com mais compreensão, mais empatia e mais ferramentas. Por isso é que defendo tanto o babywearing, porque não é um Sling, é uma transformação no tipo de parentalidade que queres viver.
O papel do colo na reconstrução da segurança emocional
O contacto pele com pele, o abraço seguro do Sling que proporciona a presença atenta e tranquila, tudo isto ajuda a regular o sistema nervoso do bebé. Quanto mais previsível é o cuidado, mais seguras são as respostas emocionais. Quanto mais colo, mais estrutura emocional tem o bebé.
O Sling e a prática diária de babywearing têm um papel central nesta regulação.
O babywearing mantém o bebé próximo ao corpo do cuidador, criando um ambiente de calor, movimento e batimento cardíaco familiar. Esta proximidade contínua contribui para:
* Regular os níveis de cortisol (hormona do stress)
* Estabilizar o ritmo cardíaco e a respiração
* Estimular o desenvolvimento neurológico saudável
* Promover padrões de sono mais tranquilos
* Melhorar a digestão e reduzir episódios de cólicas
* Estreitar o vínculo afetivo e a sensação de segurança
Estudos mostram que bebés carregados em Sling choram menos, apresentam maior capacidade de auto-regulação e desenvolvem vínculos mais seguros com os cuidadores.
Se o teu bebé chora menos, todos os níveis de stress da tua casa vão reduzir.
Um bebé que é confortado aprende a confiar. E quando confia, consegue explorar o mundo com mais autonomia e segurança. Ao contrário do que muitos pensam, é o vínculo (e não a rigidez) que gera independência. Com um bebé mais autónomo, vais ter menos crises noturnas em que ele chama por se sentir sozinho e frágil. O teu bebé desenvolve auto-confiança e o melhor de tudo, é isto que te vou dizer agora.
Nunca é tarde para recomeçar
Se houve gritos, se houve momentos de ruptura: não desistas de reparar. O amor que começas a dar hoje pode reerguer a auto-estima e o equilíbrio emocional do teu bebé. Todos os dias contam. E tu também mereces colo, apoio e compreensão.
Na Pulguinhas, acreditamos que é com mais amor, não com mais controlo, que se criam crianças fortes.
E é com vínculo que se repara aquilo que o cansaço tantas vezes nos fez quebrar. Não é tarde para alimentar de amor e reparar o equilíbrio emocional com mais colo e vínculo.

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